quarta-feira, 30 de setembro de 2009

UM POEMA DE ADÉLIA PRADO PRA SAIR DA ROTINA

NO MEIO DA NOITE

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:sem apoio de mesa ou jarro eram as buganvílias brancas destacadas de um escuro.Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:"A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculosda alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos." Doía como um prazer. Vendo que eu não mentia ele falou:as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.Eu sou singelo. Fica singela também.Respondi que queria ser singela e na mesma hora, singela, singela, comecei a repetir singela.A palavra destacou-se novíssima como as buganvílias do sonho. Me atropelou. O que foi? - ele disse. - As buganvílias...Como nenhum de nós podia ir mais além, solucei alto e fui chorando, chorando,até ficar singela e dormir de novo.

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