Além do preconceito e
das dificuldades em conseguir trabalho, os contaminados pelo HIV enfrentam a
rejeição da própria família. Apesar de uma cura ainda não ter sido descoberta,
a medicina tem ajudado os infectados a viver com mais qualidade de vida, porém é
preciso fazer o tratamento corretamente.
No dia em que Marcilene
N.S. concedeu essa entrevista, ela estava completando 26 anos. Apesar de ser
uma data festiva para muitos, a dona de casa não tem o que comemorar. A doença
roubou dela os sonhos, a vaidade e a perspectiva de um futuro melhor. A
aparência da jovem denuncia que a vida não foi nada justa para ela. Marcilene
estudou apenas até a 3ª série do ensino fundamental, e sobrevive com os $300
reais que recebe mensalmente do “Bolsa Família”. Ela tem três filhos, o mais
novo com 1 ano, o do meio com 3, e o mais velho tem 7 anos. E o mais
impressionante dessa história é que, apesar dos riscos, nenhuma das crianças
foi infectada pelo vírus da Aids.
Marcilene só descobriu que
havia sido contaminada pelo pai dos seus dois primeiros filhos, após um amigo dizer
que o homem tinha a doença. Segundo ela, o companheiro acabou morrendo de cirrose.
O pai do filho mais novo fruto de um novo relacionamento, não foi contaminado.
A jovem gostaria de
encontrar um trabalho, chegou a vender picolé, mas passa mal com a medicação e
desmaia sempre que toma os remédios. E, para piorar a situação, a cesta básica
que recebia do Consórcio Intermunicipal de Saúde, foi cortada. “A moça me disse
que tem mais oito pessoas precisando de ajuda com cesta básica. Ela falou que
apenas se sobrar que podia me dar”, disse.
A
crença em Deus
Na época quando recebeu
o diagnóstico positivo ficou desesperada e xingou os funcionários do Consórcio.
Em tratamento há um ano, Marcilene precisa tomar nove comprimidos ao dia para
não adoecer. Atualmente morando na casa da ex-sogra, sua maior diversão é
assistir televisão e, às vezes, ir à igreja. Ela se converteu a uma religião
evangélica e acredita que Deus ainda vai curá-la. “Muita gente fala que eu não tenho isso. Meu
maior desejo é trabalhar como empregada doméstica pra tentar reformar minha
casa. Os tijolos do meu quarto já caíram quase tudo e as paredes correm risco
de cair”, conta.
Segundo S., o preconceito
que aflige muitos soropositivos não atrapalhou seu relacionamento com os
amigos. Por incrível que pareça, foi a família que lhe virou as costas. Ela não
tem nenhum contato com os pais, nem com os irmãos. “Meus amigos me tratam normalmente.
Minha vizinha, por exemplo, eu arrumo casa pra ela e ajudo ela fazer as coisas”,
afirmou Marcilene.
Um
médico na família
Os filhos são os únicos
motivos que ainda fazem a dona de casa esboçar um tímido sorriso. Para surpresa
de Marcilene, o filho mais velho sonha em ser médico. A mulher que não tinha o
hábito de usar preservativo com seus parceiros hoje reconhece que, a proteção,
é a única forma de as pessoas ficarem livres do HIV. “O conselho que eu dou pra
quem está vivendo uma vida doida aí nesse mundão é usar camisinha”, aconselhou.



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