quinta-feira, 26 de junho de 2014

Creme pretende “exterminar” identidade negra

A criadora do creme é uma cantora de origem africana que, assim como Michael Jackson, vem chamando a atenção pela mudança repentina na cor da pele

Uma cantora africana de Camarões chocou o mundo, nos últimos meses, ao lançar um creme capaz de clarear a pele negra. Ela foi alvo de milhares de ataques, principalmente de movimentos de defesa dos negros. A polêmica envolvendo a cantora Dencia, reacendeu, novamente, o debate sobre autoestima da população negra. Dencia, assim como Michael Jackson, tem chamado a atenção pela mudança repentina na cor da pele. Ela é negra e “criou” um creme que seria capaz de embranquecer a pele. Porém, os dermatologistas alertam para os perigos de se utilizar um produto como esse que, provavelmente, deve ter altas concentrações de uma substância chamada hidroquinona, podendo causar sérios danos à saúde. Episódios como esse demonstram que a luta contra a discriminação racial ainda é um longo caminho a ser percorrido, a fim de construir uma sociedade menos desigual e preconceituosa.

“A gente enfrenta isso principalmente nas comunidades quilombolas. Porque para que elas sejam legitimadas, como quilombolas, têm que se declarar remanescente de quilombo e, sobretudo, a questão da negritude. Uma das principais dificuldades desses movimentos de legitimação, é construir com esse grupo a identidade”, explica a presidente do Compir/TO-Conselho Municipal de Igualdade Racial de Teófilo Otoni, Neuslete Esteves dos Santos Neumann.
Neuslete Esteves dos Santos
Segundo Neuslete, é preciso cautela antes de fazer um pré-julgamento sobre a atitude da cantora em querer tornar-se branca, já que não se sabe a história de vida dessa pessoa. “Porque se eu não me identifico com um grupo social ou racial, eu não vou poder fazer parte dele e pensando sobre a questão do ser humano, não tem como a gente declarar certo ou errado é uma questão de identidade. Eu não me identifico com um gênero, então vou buscar um que seja condizente com a minha existência”.
Ser diferente é normal
Para Neumann, a questão da negritude, assim como em qualquer outra etnia, é uma questão de identidade. Ou seja, a pessoa se identifica ou não com a raça negra. Segundo ela, o tema é complexo, pois há diferentes fatores que podem levar uma pessoa negra a querer mudar a cor da pele como: a mídia, o sofrimento causado pelo preconceito vivenciado ao longo da vida, ou, até mesmo, o fato de essa pessoa não ter se inserido em nenhum grupo social negro. “Numa sociedade extremamente preconceituosa, muitas crianças questionam aos pais: Por que a minha pele é suja? É mais escura? Porque é isso que a nossa sociedade preconceituosa incute no sujeito negro, ou seja, ele é diferente do normal. Mas que normal é esse? Quando você trabalha a questão da negritude em você, você se percebe enquanto negro e deixa de sentir isso como uma mancha ou um defeito, mas como um traço identitário. A minha pele e o meu cabelo são assim. Eu não vou deixar de ser mais ou menos humano porque eu tenho uma determinada característica física”, disse Neuslete.
Melina Sousa da Rocha
Cantora Anitta também teria utilizado cremes para “embranquecer”
De acordo com a militante pelo Coletivo Feminista Negro Bloco das Pretas e Coletivo de Estudantes Negros (CEN), Melina Sousa da Rocha, a postura da Cantora Dencia evidencia como uma sociedade estruturada pelo racismo e pelo sexismo tem conseguido propagar sua intenção que, segundo ela pretende eliminar toda identidade negra, fazendo com que os negros tenham vergonha de si e de suas raízes.  “No Brasil tivemos um caso recente com a cantora Anitta, também acusada de utilizar cremes com o objetivo de clarear a pele e de intervenções cirúrgicas para afinar os traços considerados grosseiros. Estes casos só assustam as pessoas por estarem ligadas a transformações extremas, evidentes e bastante polemizadas pela mídia como no caso do Cantor Michael Jackson”.
Padrão estético branco
A militante enfatiza que a população negra tem sido afetada em sua autoestima por esses padrões estéticos todos os dias. Segundo Melina, nas mídias diversas existe a manutenção e a ênfase em sustentar que negros e negras inexistem. “Desde crianças aprendemos que a boneca mais bonita é a Barbie, que uma princesa branca nos libertou da escravidão, que não temos heróis negros e que não existem princesas negras. Como não querer ser branco ou branca se todas as nossas representações são essas?”, questiona.

Para Melina, o embranquecimento acontece de forma gradual, quando a estética negra é negada pela imposição da estética branca. “Negam nossa história, negam nossa cultura, nossas religiões, costumes e crenças, negam até os direitos mais básicos. Aprendemos uma história em que o bonito e o legal é ser branca e ter o cabelo liso, portanto várias meninas negras querem se aproximar do padrão: loira, branca, alta, magra e dos olhos azuis, mesmo que para isso tenham que negar suas raízes negras e sustentar essa imposição para sempre”, disse.
A criadora do creme é uma cantora de origem africana que, assim como Michael Jackson, vem chamando a atenção pela mudança repentina na cor da pele

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