A criadora do creme é uma cantora de origem africana que, assim como
Michael Jackson, vem chamando a atenção pela mudança repentina na cor da pele
Uma cantora africana de Camarões chocou o mundo, nos últimos meses, ao
lançar um creme capaz de clarear a pele negra. Ela foi alvo de milhares de
ataques, principalmente de movimentos de defesa dos negros. A polêmica
envolvendo a cantora Dencia, reacendeu, novamente, o debate sobre autoestima da
população negra. Dencia, assim como Michael Jackson, tem chamado a atenção pela
mudança repentina na cor da pele. Ela é negra e “criou” um creme que seria
capaz de embranquecer a pele. Porém, os dermatologistas alertam para os perigos
de se utilizar um produto como esse que, provavelmente, deve ter altas
concentrações de uma substância chamada hidroquinona, podendo causar sérios
danos à saúde. Episódios como esse demonstram que a luta contra a discriminação
racial ainda é um longo caminho a ser percorrido, a fim de construir uma
sociedade menos desigual e preconceituosa.
“A gente
enfrenta isso principalmente nas comunidades quilombolas. Porque para que elas
sejam legitimadas, como quilombolas, têm que se declarar remanescente de
quilombo e, sobretudo, a questão da negritude. Uma das principais dificuldades
desses movimentos de legitimação, é construir com esse grupo a identidade”,
explica a presidente do Compir/TO-Conselho Municipal de
Igualdade Racial de Teófilo Otoni, Neuslete Esteves dos Santos Neumann.
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| Neuslete Esteves dos Santos |
Segundo Neuslete, é
preciso cautela antes de fazer um pré-julgamento sobre a atitude da cantora em
querer tornar-se branca, já que não se sabe a história de vida dessa pessoa. “Porque se eu não me identifico com um grupo social ou racial,
eu não vou poder fazer parte dele e pensando sobre a questão do ser humano, não
tem como a gente declarar certo ou errado é uma questão de identidade. Eu não
me identifico com um gênero, então vou buscar um que seja condizente com a
minha existência”.
Ser diferente é normal
Para
Neumann, a questão da negritude, assim como em qualquer outra etnia, é uma
questão de identidade. Ou seja, a pessoa se identifica ou não com a raça negra.
Segundo ela, o tema é complexo, pois há diferentes fatores que podem levar uma
pessoa negra a querer mudar a cor da pele como: a mídia, o sofrimento causado
pelo preconceito vivenciado ao longo da vida, ou, até mesmo, o fato de essa
pessoa não ter se inserido em nenhum grupo social negro. “Numa sociedade
extremamente preconceituosa, muitas crianças questionam aos pais: Por que a
minha pele é suja? É mais escura? Porque é isso que a nossa sociedade
preconceituosa incute no sujeito negro, ou seja, ele é diferente do normal. Mas
que normal é esse? Quando você trabalha a questão da negritude em você, você se
percebe enquanto negro e deixa de sentir isso como uma mancha ou um defeito,
mas como um traço identitário. A minha pele e o meu cabelo são assim. Eu não
vou deixar de ser mais ou menos humano porque eu tenho uma determinada característica
física”, disse Neuslete.
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| Melina Sousa da Rocha |
Cantora Anitta também teria utilizado cremes para “embranquecer”
De acordo
com a militante pelo Coletivo Feminista Negro Bloco das Pretas e Coletivo de
Estudantes Negros (CEN), Melina Sousa da Rocha, a postura da Cantora Dencia
evidencia como uma sociedade estruturada pelo racismo e pelo sexismo tem
conseguido propagar sua intenção que, segundo ela pretende eliminar toda
identidade negra, fazendo com que os negros tenham vergonha de si e de suas
raízes. “No Brasil tivemos um caso recente com a cantora Anitta, também
acusada de utilizar cremes com o objetivo de clarear a pele e de intervenções
cirúrgicas para afinar os traços considerados grosseiros. Estes casos só
assustam as pessoas por estarem ligadas a transformações extremas, evidentes e
bastante polemizadas pela mídia como no caso do Cantor Michael Jackson”.
Padrão estético branco
A militante
enfatiza que a população negra tem sido afetada em sua autoestima por esses
padrões estéticos todos os dias. Segundo Melina, nas mídias diversas existe a
manutenção e a ênfase em sustentar que negros e negras inexistem. “Desde
crianças aprendemos que a boneca mais bonita é a Barbie, que uma princesa
branca nos libertou da escravidão, que não temos heróis negros e que não
existem princesas negras. Como não querer ser branco ou branca se todas as nossas
representações são essas?”, questiona.
Para
Melina, o embranquecimento acontece de forma gradual, quando a estética negra é
negada pela imposição da estética branca. “Negam nossa história, negam nossa
cultura, nossas religiões, costumes e crenças, negam até os direitos mais
básicos. Aprendemos uma história em que o bonito e o legal é ser branca e ter o
cabelo liso, portanto várias meninas negras querem se aproximar do padrão:
loira, branca, alta, magra e dos olhos azuis, mesmo que para isso tenham que
negar suas raízes negras e sustentar essa imposição para sempre”, disse.
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| A criadora do creme é uma cantora de origem africana que, assim como Michael Jackson, vem chamando a atenção pela mudança repentina na cor da pele |




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