sexta-feira, 27 de junho de 2014

Muitas mulheres vítimas de violência doméstica têm pena de denunciar agressor

Os crimes previstos na Lei Maria da Penha incluem violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

O calvário da dona de casa Lunalva Maria, de 63 anos, começou há 20 anos quando ela conheceu o atual companheiro. De lá pra cá, sua vida tem sido marcada pelas constantes agressões do marido que faz uso de bebida alcoólica. No entanto, ela não consegue dar um fim ao casamento com medo de ficar sozinha, mesmo sendo maltratada.
“Ele joga na cara da gente que é ele que põe comida na mesa, e faz aquelas palhaçadas de bêbado que maltrata a gente demais. Tem dia que me dar vontade de acabar com esse casamento. Mas se ele for embora eu vou sentir falta. A gente acostuma com a pessoa mesmo ela te maltratando, você consegue relevar”, conta.
Os olhos marejados, enquanto relata as agressões sofridas dentro de casa, denunciam a fragilidade das mulheres que são vítimas de violência doméstica.  Lunalva disse que a situação piorou após o casal oficializar o casamento. Ela é 15 anos mais velha que o marido. Há cinco anos criou coragem e denunciou o agressor, mas, diante da ameaça de prisão do homem, teve pena. “Eu não deixei ele ir preso porque ele é muito bom. Ele não deixa faltar as coisas dentro de casa, mesmo ele alegando que ele banca tudo. Ás vezes quando ele começa gritar lá na rua para os vizinhos ouvirem que ele que sustenta a casa, tenho vontade de dar parte dele, mas fico com dó”. 
A dona de casa que nas horas vagas faz uns “bicos” como costureira parece ter acostumado com a essa situação. “O negócio é que ele não vai embora. Eu também fico com medo dele ficar abandonado na rua e as pessoas judiarem dele, porque os parentes dele não querem ele, por causa da bebida. Eu sou casada com ele, se eu jogar ele fora, o que ele vai fazer? Pra onde que ele vai? Outra mulher não quer homem cachaceiro”, justifica Lunalva.
Lei Maria da Penha
Para a Delegada da Mulher, Herta Coimbra, a Lei Maria da Penha trouxe medidas eficazes para combater a violência doméstica, no que tange às medidas protetivas.  Segundo ela, o problema da eficácia da Lei está na fiscalização do cumprimento das medidas adotadas. “O poder público não consegue fiscalizar depois que as medidas são decretadas pelo juiz, se realmente o agressor vem cumprindo e respeitando essas medidas no dia a dia. Por isso, que volta haver reincidência, mas a Lei em si é uma Lei benéfica, é uma Lei afirmativa que defende os direitos da mulher. Mas no dia a dia inúmeras vezes a gente se depara com desobediência por causa da eficácia do cumprimento”, afirma.
Tornozeleiras eletrônicas poderiam ajudar
De acordo com a delegada, a tornozeleira eletrônica identificaria a aproximação do agressor da ofendida, com isso, teria como ser detectado se ele está descumprindo a distância mínima, e judicialmente a fiscalização mensal nos processos da Lei Maria da Penha, quanto ao cumprimento das medidas. No entanto, Coimbra ressalta que caso o agressor esteja disposto a matar dificilmente será impedido. “Se ele tiver que matar ele mata, ninguém impede uma pessoa de matar. A pessoa que está decidida a matar, a polícia e o poder público não a impedem de matar. Mata dentro da igreja, na porta da escola, mata no supermercado; com tornozeleira ou sem ela vai matar, mas esses são casos isolados. Na regra geral, uma vez que as medidas são adotadas, nós temos como fiscalizar essas medidas através de tornozeleiras, fiscalização mensal nos processos da Lei Maria da Penha com comparecimento da ofendida pra ela dizer se vem sendo cumpridas ou não. Porque se ele vem descumprindo tem que decretar a prisão preventiva dele”.

Em Teófilo Otoni ainda não existe nenhum projeto nesse sentido. “Inclusive algumas pessoas questionam que isso seria uma situação de discriminação e violaria a dignidade da pessoa humana, mas quando a pessoa comete uma violência doméstica pratica um crime. Ela já violou a regra de conduta social, já está violando a regra. Então, eu acho que o coletivo se sobrepõe ao particular e o agressor, aquela pessoa que pratica violência doméstica, tem que ser monitorada”, defende a delegada Herta Coimbra.

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